29 de junho de 2013

O FUNK NA ESCOLA: RELATO DE EXPERIÊNCIA NO ENSINO NOTURNO.
Autor: Bruno Pinto de Sousa

Começo minha contribuição com uma grande instigação que me toma conta constantemente nos momentos aos quais penso minha prática docente: Como falar a “língua dos alunos”? Percebo, de alguma forma, o fato de a maioria dos conteúdos trabalhados, seja por falhas na exploração dos próprios, como deficiência na comunicação, ou qualquer tipo que seja, não afetam aos alunos da maneira como pensamos. Por vezes, escolhemos um conteúdo e uma forma metodológica que cremos contemplar nossos objetivos de forma satisfatória, porém, diversas vezes para os alunos, tal conteúdo não se aproxima de suas realidades, não os afeta da forma desejada. Por esse motivo, descreverei em meu texto uma experiência realizada no Colégio Estadual Barão de Macaúbas, localizado no Bairro de Inhaúma - Rio de Janeiro, uma das escolas contempladas pelo Subprojeto.
No primeiro bimestre, trabalhamos com três grupos temáticos: Jogos/Esportes, Saúde e Atividades Rítmicas/ expressivas. No bloco Atividades Rítmicas/expressivas decidimos então utilizar como conteúdo a manifestação cultural Funk. Julgamos ser uma manifestação cultural muito difundida entre os alunos, sendo assim um conteúdo bastante interessante para se trabalhar na escola, logo, poderia fazê-los pensar criticamente um elemento bastante presente em sua realidade e, por uma até contradição, pouco explorado no âmbito escolar. Diria até reprimido constantemente acriticamente.
Num primeiro momento tivemos uma aula predominantemente prática, seguida de uma teórica. Na aula prática, os separamos em três grupos e entregamos duas letras de Funk para cada grupo, essas letras seriam divididas propositalmente em três fases do Funk, o mais americanizado, aproximando-se do Charme americano, o Funk de contestação social e o atual (onde a maior parte deles sofre grande e direta intervenção da indústria cultural, pautando a necessidade da arte virar apenas produto.
Após escolherem uma música de seu recorte histórico, deveriam montar uma pequena coreografia – A adesão dos alunos a atividade foi muito boa, apesar de uma aparente vergonha inicial e pouco tempo de aula, conseguiram montar pelo menos a coreografia de alguma parte da música, nos dando subsídios para as discussões que pretendíamos traçar na aula teórica.
A partir das coreografias montadas pelos alunos, assim como as letras distribuídas, na aula teórica, discutiríamos a ligação das manifestações culturais com a sociedade, nos dando indícios de hábitos culturais que nos auxiliam para identificar traços predominantes da sociedade estudada, entendendo sua modificação de acordo com as alterações sociais, como as representações culturais acerca de questões de gênero, vestuário, influência da indústria cultural sobre as manifestações, além do conceito de cultura, desmistificando o fato de o funk ser deslegitimado enquanto cultura, a história do funk, dentre outras.
De uma maneira geral a aula foi bastante proveitosa, trabalhamos um conteúdo de alta incidência no cotidiano da maioria, podendo discuti-lo criticamente, nos aproximando cada vez mais do aluno, podendo influenciar mais efetivamente em sua vida. Fazer com que ele extrapole os muros da escola, levando os conhecimentos construídos ali para sua vida extraescolar.
Uma das nossas dificuldades foi a resistência dos alunos religiosos, porém uma explanação de um dos alunos (de mais idade e Evangélico) perante a turma foi muito interessante, nos deixando mais confiantes da introdução de conteúdos diversos, que disse: “Pessoal, eu NUNCA dancei na vida, principalmente FUNK, no máximo forró. Se fosse um palco de pregação ou coisa do tipo, eu iria dar um show, apesar disso, como estou na escola, quero aprender tudo que os professores acharem que é interessante para mim, porém para isso, vocês terão de me ajudar, pois eu não sei nada de FUNK”.
Em todos os momentos que trabalhei com alguma manifestação cultural, os resultados foram excelentes, convido a todos para fazerem suas críticas e sugestões de atividades para que assim possamos aprimorar nossas intervenções pedagógicas. 

11 comentários:

  1. Trabalhar com o funk é realmente interessante, até porque conseguimos nos aproximar muito mais da realidade deles com este conteúdo. E a partir desta proximidade, agregamos valores e conceitos embasados na cultura corporal. Eles já possuem uma visão do funk e quebrar certos paradigmas, oferecer formas de experimentações e novos conceitos de um mesmo objeto são umas de nossas funções como professores (em formação). No Central do Brasil as monitoras da temática de Atividades Rítmicas e Expressivas também trabalharam o funk e este subtema rendeu diversas reflexões, vale a pena.

    Raíra Rodrigues.

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    1. Raíra, acho que você ou outro monitor do Central do Brasil, poderiam descrever como foi essa aula, pois aí veríamos outra forma de trabalhar o FUNK, fazendo com que refletíssemos de uma forma mais interessante e rica.
      Obrigado pelo comentário!

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  2. O debate foi dentro do GT, os alunos trouxeram a temática e outros começaram a questionar o funk como conteúdo cultural, mas os detalhes do debate eu não sei pois não estava presente. Podemos convidar a Júlia ou a Bianca para descreverem melhor as argumentações dos alunos.

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  3. Eu acho que a aproximação com os alunos por meio do Funk é fundamental, assim como qualquer outo estilo, desde que seja feito em uma perspectiva crítica, que os leve a refletir. E eu acho fundamental fazer o diálogo entre o funk e outros gêneros musicais, chico, vinicius e afins, porque esse tipo musical, os alunos das regiões mais carentes, dificilmente tem acesso, e temos que oportunizá-los nesse sentido, porque se não, a propria escola se torna o lugar de perpetuação do status quo.

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    1. Concordo plenamente com você, Matheus.
      Ainda digo mais, sentimos restrição de muitos alunos que apesar de morarem em comunidades desprovidas de ação do Estado, acabam escutando muito FUNK por "osmose"(devido ao fato de a grande maioria de seus vizinhos escutarem), desenvolvendo uma certa aversão a tal estilo ou qualquer coisa que os rotulem como moradores daquelas comunidades. Fato corriqueiramente observado nos grandes meios de comunicação que pregam a ideia de que moradores de favelas devem escutar FUNK e SAMBA, terem cabelos coloridos, dentre outras características. Essa foi uma das revindicações que senti dos alunos, almejam criar sua própria identidade, deslocados de qualquer pressão social.
      Por isso ainda acredito que a diversidade de conteúdos e estímulos é o caminho para desenvolver a criticidade e autonomia dos alunos. Conteúdos esses que em sua maioria devem partir dos alunos, não sendo impostos por parte dos professores.
      Ao escrever esse texto, pensava exatamente nisso, uma forma de nos debruçarmos na discussão dos conteúdos que trabalharíamos, assim como nas suas implicações nas diversas realidades dos alunos.
      O FUNK foi apenas o início de uma longa caminhada!
      Muito Obrigado pelo comentário, Matheus Castro!

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  4. Segue o Comentário do Professor Leandro Martins, professor Supervisor do Subprojeto no Colégio Estadual Central do Brasil.

    Olá Bruno, olá pessoal da Barão
    Sou Leandro Martins, professor de Educação Física e o responsável pelo subprojeto no Colégio Estadual Central do Brasil (CECB). Primeiro parabéns pela condução do trabalho, pois conquistar evangélicos, em idades mais avançadas e de áreas sociais como a Barão é sem dúvida uma conquista. Fica claro que assim como a igreja, a escola também é um equipamento cultural para ela.
    Com relação a experiência do GT ARE, como Raíra sugeriu, vamos aguardar Júlia e Bianca se pronunciarem, pois elas são as responsáveis por este grupo.

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    1. Obrigado pelo comentário e pelas parabenizações, Leandro!
      Aguardo ansiosamente o relato delas para que assim possamos aumentar nosso debate.

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  5. Boa Noite Bruno Pinto.
    Sou Felipe Marinho professor de Educação Física da Rede Municipal de Itaguaí e do Colégio L'Hermitage Coração Eucarístico.

    Achei interessante o conteúdo e a metodologia.
    A EF apesar do caráter lúdico, nem sempre consegue alcançar a realidade e interesse dos alunos.
    O funk apesar de marginalizado por diversas instâncias da sociedade, tem uma aceitação positiva entre crianças e jovens (falo isto pela minha prática pedagógica), talvez por ter possibilidades diferentes de letras (irreverentes, contestadoras, e até mesmo vulgares) e a melodia ser dançante.
    Uma característica que não foi tocada no texto, são os funks que fazem alusão ao tráfico, compreendo que em uma aula cujo o conteúdo é o FUNK, há a possibilidade de os alunos trazerem. E caso isto aconteça, como tratar? Creio que a repressão não é o melhor caminho. Mas nós professores estamos preparados para este debate junto os alunos? Fica aí minha instigação para refletirmos e continuar o debate.

    Bruno Pinto parabéns pelo texto e pela aula

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    1. Muito boa sua colocação, Felipe Marinho. A relação do Funk com o tráfico acabou entrando nas discussões da aula (já esperado), por esse motivo e pelo fato de grande parte das coreografias e letras serem sensuais( mais característica de uma das vertentes do FUNK atual), os alunos não conseguiam legitimar o FUNK como uma produção cultural, ainda ligando o termo "cultura" a algo vindo do erudito.
      Após a aula conseguiram perceber que as letras de FUNK naquele momento retratavam o que os moradores passavam nas comunidades (assim como as opressões sofridas pelo poder paralelo) e que cultura está mais ligado a produção humana, ou seja, o formato da escola, das cadeiras, o vestuário deles. Tudo está ligado a cultura de nossa sociedade.
      Além disso, conseguiram perceber aí a influência da indústria cultural, o porquê da mudança tão drástica de algumas manifestações culturais que acabam virando cultura de massa e assim perdendo seu significado inicial.
      Também não acredito que a repressão seja o caminho, porém não vejo formas fechadas de sanarmos essas questões porém creio que o diálogo seja um dos caminhos!
      Obrigado pelo comentário, Felipe, sigamos no debate.

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  6. Olá pessoal,
    sou a Julia, uma das monitoras do GT de ARE no Colégio Estadual Central do Brasil.
    Então, a discussão sobre o Funk surgiu a partir do interesse de alguns alunos em pesquisar mais sobre essa manifestação cultural. Como em um grupo de trabalho, foram debatidos diferentes temas dentro de Atividades Rítmicas e Expressivas. E o Funk foi uma das temáticas que gerou maior fomento para o debate.
    Entendendo o mesmo como uma questão polêmica, os alunos que se identificavam com o Funk, as vezes eram recriminados pelos demais que não gostavam. E a dificuldade de trabalhar o Funk na escola, a meu ver é a falta de criticidade sobre o assunto.
    Todos julgamos o Funk, como cultura de massa, que como "aparato midiático" alimenta a indústria fonográfica e etc.
    Mas é preciso entender que para além disso existem os Funks conscientes, e que trazem a realidade das comunidades existentes, e fazem críticas sociais as condições de vida nas mesmas. Ou seja, não podemos negar uma cultura que está posta para nós, mas sim trabalha - lá de maneira reflexiva.
    No debate, foi possível ver que os alunos vivem um conflito, em revelar que gostam ou não do Funk, por conta da rotulação. Pois como disse anteriormente sobre a música rentável, o que é amplamente divulgado, são os Funks que fazem apologia a violência, tráfico de drogas e principalmente ao sexo, que na maioria das vezes está exposto um problema de gênero onde a mulher é submissa e está subjugada às vontades do homem. E além das letras a forma de se dançar também insinua o ato. ( Foi pontuado também a forma dos homens dançarem o Funk, diferente de como as mulheres dançam.)
    Então quando o Marinho fala de como lidar com esses tipos de funk, é necessário problematizar esses tipos de opressões e relacioná-las de uma forma geral com a realidade dos nossos alunos.
    Por fim, a conclusão do debate foi de que o Funk está presente na vida de todos, mas nem sempre as mensagens que esses que são mais comercializados passam, são positivas para as relações sociais que estabelecemos, e precisamos estar atentos a isso.
    É possível falar do tráfico e violência mas de uma forma crítica, mostrando que não é esse estilo de vida que a população moradora de comunidade almeja.
    Que se pode falar da sexualidade sem denegrir uma outra pessoa independente de gênero, cor ou opção sexual.
    E que novos MC's principalmente do sexo feminino, vem ganhando espaço nesse cenário, com letras de "revide" ao machismo imposto pela nossa sociedade.

    Julia Leite

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    1. Muito Obrigado pela contribuição, Julia! Concordo com o que disse, porém tenho dois comentários a fazer, assim como dois Links que podem servir para aumentar nosso acúmulo teórico sobre o tema e auxiliar no debate que por sinal está sendo ótimo.

      Quando citei o Funk atual, fiz questão (por puxão de orelha de um grande amigo, Rian Rodrigues, rs) de colocar entre parênteses a qual "Funk Atual" estava me referindo, justamente por saber que ainda existem Funks na atualidade que são críticos, como você mesmo disse, "são conscientes, e que trazem a realidade das comunidades existentes, e fazem críticas sociais as condições de vida nas mesmas". Creio também que esses tipos de letras devem ser mostradas aos alunos, poderia assim diminuir à resistência da maioria. Chegando ao primeiro Link, indico a entrada no Site desse grupo que tem como principal foco os Funks Críticos, organizam rodas de Funk, dentre outras atividades, bem explicitadas em seu site:

      http://www.apafunk.org/

      Quanto ao "revide" das MC´s, só tenho medo de por muitas vezes esse "revide" acabar ao invés de revidar, perpetuar essas práticas opressoras observadas em nossa sociedade (deixando claro que é apenas um comentário de alguém que não possui um escopo teórico que subsidie maiores reflexões sobre o tema, como sei que você possui).

      No segundo Link, mostro um caso que foi discutido muito recentemente quando uma aluna passou para o Mestrado da UFF com um projeto sobre a "Valesca Popozuda"

      http://www.wscom.com.br/noticia/educacao/UFF+APROVA+PROJETO+SOBRE+V+POPOZUDA-147916

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