Autor: Bruno Pinto de Sousa
Começo
minha contribuição com uma grande instigação que me toma conta constantemente
nos momentos aos quais penso minha prática docente: Como falar a “língua dos
alunos”? Percebo, de alguma forma, o fato de a maioria dos conteúdos
trabalhados, seja por falhas na exploração dos próprios, como deficiência na
comunicação, ou qualquer tipo que seja, não afetam aos alunos da maneira como
pensamos. Por vezes, escolhemos um conteúdo e uma forma metodológica que cremos
contemplar nossos objetivos de forma satisfatória, porém, diversas vezes para
os alunos, tal conteúdo não se aproxima de suas realidades, não os afeta da
forma desejada. Por esse motivo, descreverei em meu texto uma experiência
realizada no Colégio Estadual Barão de Macaúbas, localizado no Bairro de Inhaúma
- Rio de Janeiro, uma das escolas contempladas pelo Subprojeto.
No
primeiro bimestre, trabalhamos com três grupos temáticos: Jogos/Esportes, Saúde
e Atividades Rítmicas/ expressivas. No bloco Atividades Rítmicas/expressivas
decidimos então utilizar como conteúdo a manifestação cultural Funk. Julgamos
ser uma manifestação cultural muito difundida entre os alunos, sendo assim um
conteúdo bastante interessante para se trabalhar na escola, logo, poderia
fazê-los pensar criticamente um elemento bastante presente em sua realidade e,
por uma até contradição, pouco explorado no âmbito escolar. Diria até reprimido
constantemente acriticamente.
Num
primeiro momento tivemos uma aula predominantemente prática, seguida de uma
teórica. Na aula prática, os separamos em três grupos e entregamos duas letras
de Funk para cada grupo, essas letras seriam divididas propositalmente em três
fases do Funk, o mais americanizado, aproximando-se do Charme americano, o Funk
de contestação social e o atual (onde a maior parte deles sofre grande e direta intervenção da indústria cultural, pautando a necessidade da arte virar apenas produto.
Após
escolherem uma música de seu recorte histórico, deveriam montar uma pequena
coreografia – A adesão dos alunos a atividade foi muito boa, apesar de uma
aparente vergonha inicial e pouco tempo de aula, conseguiram montar pelo menos
a coreografia de alguma parte da música, nos dando subsídios para as discussões
que pretendíamos traçar na aula teórica.
A
partir das coreografias montadas pelos alunos, assim como as letras
distribuídas, na aula teórica, discutiríamos a ligação das manifestações
culturais com a sociedade, nos dando indícios de hábitos culturais que nos
auxiliam para identificar traços predominantes da sociedade estudada,
entendendo sua modificação de acordo com as alterações sociais, como as
representações culturais acerca de questões de gênero, vestuário, influência da
indústria cultural sobre as manifestações, além do conceito de cultura,
desmistificando o fato de o funk ser deslegitimado enquanto cultura, a história
do funk, dentre outras.
De
uma maneira geral a aula foi bastante proveitosa, trabalhamos um conteúdo de
alta incidência no cotidiano da maioria, podendo discuti-lo criticamente, nos
aproximando cada vez mais do aluno, podendo influenciar mais efetivamente em
sua vida. Fazer com que ele extrapole os muros da escola, levando os
conhecimentos construídos ali para sua vida extraescolar.
Uma
das nossas dificuldades foi a resistência dos alunos religiosos, porém uma
explanação de um dos alunos (de mais idade e Evangélico) perante a turma foi
muito interessante, nos deixando mais confiantes da introdução de conteúdos
diversos, que disse: “Pessoal, eu NUNCA dancei na vida, principalmente FUNK, no
máximo forró. Se fosse um palco de pregação ou coisa do tipo, eu iria dar um
show, apesar disso, como estou na escola, quero aprender tudo que os
professores acharem que é interessante para mim, porém para isso, vocês terão
de me ajudar, pois eu não sei nada de FUNK”.
Em todos os momentos que trabalhei com alguma manifestação cultural, os resultados foram excelentes, convido a todos para fazerem suas críticas e sugestões de atividades para que assim possamos aprimorar nossas intervenções pedagógicas.
Em todos os momentos que trabalhei com alguma manifestação cultural, os resultados foram excelentes, convido a todos para fazerem suas críticas e sugestões de atividades para que assim possamos aprimorar nossas intervenções pedagógicas.