EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR NOTURNA: A AULA COMO FONTE DE EXPERIMENTAÇÃO E APRENDIZAGEM
Autor: Vinícius Gama
É com grande prazer que faço a primeira publicação neste espaço. Espaço este de ideias, debates e relatos que poderão contribuir para ascensão da Educação Física escolar. Hoje venho relatar minha experiência no Ensino Básico junto a este projeto, que contribuiu de maneira extremamente efetiva, para meu crescimento como futuro professor.
Começo este relato dizendo o quão difícil é lidar com pessoas. Pessoas têm diferentes ideais, visões, maneiras de agir e reagir, além de ter livre arbítrio. Quando pessoas com tantas diferenças estão concentradas em um único lugar, o trabalho se torna bem mais difícil. Mas que trabalho é este? Vários. Um professor não está em sala de aula simplesmente para ensinar determinados conteúdos, mas sim, ensinar a ser cidadão, colocando valores acima de qualquer conhecimento científico. E isso gera discussões. Afinal, quem deve educar? A escola ou a família? Mesmo sendo prevista em lei que a educação deve vir de ambos os lados, muitos problemas sociais são devidos a questionamentos como este, que não é bem claro para muitas pessoas (professores e familiares). E isso, consequentemente, torna o trabalho na escola mais difícil. E quando isso se soma à falta de interesse dos alunos de estar na escola, a educação em geral se torna um desastre. Digo isso com propriedade depois de vivenciar o ensino noturno de uma escola no Caju. Lá o ensino era regular, mas as idades numa mesma sala eram das mais variadas. Por isso ficava nítido o valor que cada aluno dava à escola, e os de idade mais avançada davam muito mais. Como a maioria estava em sua idade correta na série, a porcentagem de alunos desinteressados era bem maior. Acabava que o objetivo do projeto, que é buscar a autonomia do aluno, perdia espaço para o simples ato de buscar o interesse, sempre. Mas, mesmo neste amargo relato, coisas boas também aconteceram, como o desabafar de uma aluna dizendo: “Vocês salvaram minha vida.”, depois de uma visita ao Centro de Tradições Nordestinas, como parte da avaliação de um bimestre com o conteúdo dança. Nesse local, os alunos tinham que dançar forró com alguém desconhecido e fazer uma entrevista com tal pessoa. A aceitação da turma (dos alunos presentes) foi quase que unânime, por ter sido divertido e esclarecedor naquilo que estavam estudando. Mais marcante do que esse desabafo da aluna, foi a resposta do professor da turma, que disse: “Nós não salvamos sua vida, você salvou a sua quando se deixou experimentar.”, o que mostra que o aprendizado só acontece quando se está aberto para isso. Isso tudo não seria tão marcante se eu não tivesse visto a resistência dessa mesma aluna em fazer as primeiras aulas práticas de dança, talvez por sua timidez ou mesmo a sua religião. Na escola atual, no Méier, a realidade, em comparação com a escola do Caju, é bem diferente. Mas como ainda estamos trilhando um caminho desconhecido, prefiro não tirar conclusões agora. Apenas adianto que estamos utilizando uma metodologia diferente da que foi usada na escola do Caju, e eu estou bem otimista com o resultado. Por enquanto é trabalhar e aguardar.
Termino este relato agradecendo a oportunidade de fazer parte deste projeto e poder crescer mais e mais. A incerteza do que é a Educação Física faz eu me apaixonar cada vez mais por esta disciplina que é adorada nas primeiras séries e odiada nas últimas. E, mesmo assim, ainda mais adorada do que muitas outras (arrisco a dizer do que todas as outras). Espero poder contribuir cada vez mais para a nossa educação.
Foi muito gratificante ter podido compartilhar essa experiência no Caju em conjunto com você e os demais bolsistas que atuaram no Clóvis Salgado( situado no Caju). Um dos casos mais marcantes foi com certeza o dessa menina, que além do que foi relatado aqui por você, após o ano letivo terminar, essa mesma aluna vinha me fazendo perguntas frequentes sobre o curso de Educação Física, mostrando interesse muito grande em cursar a mesma.
ResponderExcluirEssa aluna começou a incluir em sua vida exercícios físicos regulares, mostrando aparentemente aumentar sua auto-estima.
Outro fato curioso é o de que essa mesma aluna havia tido aula com o professor supervisor no ano anterior(se não me engano) e havida ficado em dependência em Educação Física, disciplina que certamente em seu 3º ano foi a que considerou mais prazerosa e marcante em sua vida "extra-escola".
Não quero me alongar muito, porém acredito que essa mudança de pensamento da mesma ocorreu devido ao fato de uma ação pedagógica elaborada de forma mais atenciosa, gerando assim uma variabilidade de conteúdos significativa, fugindo do chamado "quadrado mágico", dando possibilidades de trabalharmos os mesmos objetivos através de conteúdos diferenciados, entendo também a especificidade dos alunos do ensino noturno - EVASÃO.
Abaixo segue os exemplos de conteúdos trabalhados durante um ano letivo:
1º ano - Jogos com Bola, Conhecimentos sobre o corpo, Jogos olímpicos, lutas e corrida de orientação e Dança
3º ano - Futsal e Jogos Populares, Jogos Olímpicos, Corrida, Caminhada e Dança.
Esse relato só me leva a refletir ainda mais sobre a importância de um planejamento consciente e de longo e médio prazo, aumentando assim as chances de "sucesso educacional".
Realmente Vinícius, esta sua argumentação inicial é de extrema importância. Os alunos enxergam a escola como locus de reprodução de conteúdos científicos, por isto existe a resistência quando trazemos uma proposta diferenciada, como a nossa, na qual trabalhamos a cidadania e principalmente a autonomia.
ResponderExcluirParece que é consenso para todos a questão da "educação vir de casa e não da escola", como se não devêssemos discutir moral, cidadania e atitudes do cotidiano.
Acredito neste projeto e percebo muitas respostas positivas dos alunos que só reforçam o nosso empenho em seguir com o trabalho.
Raíra Rodrigues.
Paulo Freire já dizia: "Se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda."
ResponderExcluirÉ incrível ver a mudança que pequenas atitudes podem causar na vida das pessoas. É muito gratificante ver também aquelas pessoas que se subjugavam por qualquer razão, seja pessoal ou social, passarem a tomar decisões por conta própria, a passarem a influenciar nos espaços onde vivem, com suas opiniões e atitudes.
É interessante ver que mesmo com toda propaganda e excitação ao novo e Às misturas, nas contemporaneidade, notamos que no que tange ao corpo, ainda se tem muitos pudores ou limites. o simples ato de dançar com alguém, que é um momento de interação com o outra, pode causar timidez ou vergonha. a tarefa de problematizar as questões que tangem o corpo não é fácil. É muito difícil também é propiciar aos alunos a profunda experiência de se assumirem enquanto sujeitos. Para isso os educadores estão aí para cumprir sua tarefa político-pedagógica.
Gostaria de começar, parabenizando o Vinícius, pela sua reflexão, que traz até nós uma impressão individual e rica, sobre o desenvolvimento do subprojeto Educação Física, Autonomia e conhecimento no Colégio Estadual Clóvis Salgado. A discussão travada trouxe dados que procuram mostrar a realidade daquela comunidade escolar, pontuando os entraves e avanços, mas o que mais me chamou a atenção e gostaria de provocar um diálogo, é a questão do "interesse do aluno” ou “desinteresse do aluno”. Hoje muito tem se falado sobre a falta de interesse dos alunos e nós (equipe pibid) muito discutimos, em específico sobre o desinteresse do discente do ensino noturno, mas sempre fico me perguntando, e aqui vai minha provocação: será que o aluno/a pode ter interesse em estar dentro da escola noturna, tendo em vista que esta possui severos problemas? Minha pergunta se apresenta muito generalizadora, mas fica a reflexão, para que cada um, a partir de sua experiência de Ensino, possa vir a contribuir e juntos construirmos um diálogo sobre tal questão.
ResponderExcluirRoberto Martins Costa
Roberto, entendo sua colocação, e de fato ela é bem pertinente, mas acho que esse questionamento não se deve aos problemas da escola, e sim ao conceito que esses alunos têm dela. A escola é reconhecida como um espaço de apenas obrigatoriedades, tensão e disputa. Disputa no sentido ruim da palavra, de domínio, seja de alguns professores, ou mesmo alguns alunos que não os reconhecem como autoridade. Se a escola fosse reconhecida como um espaço de troca, de possibilidades e reflexão, talvez esse desinteresse por algo que esteja sucateado fosse amenizado e, arrisco a dizer, se houvesse interesse por parte de toda a comunidade escolar, muitos dos problemas não existiriam. O fato de algo ser sucateado, não quer dizer que seja ruim. O problema é a visão do que se tem disso e o valor que é dado à ele.
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